Iníco / Artigos / Todas as tentativas de basear a Doutrina da Trindade na Bíblia, são tentativas fracassadas.

Todas as tentativas de basear a Doutrina da Trindade na Bíblia, são tentativas fracassadas.

Caros irmãos adventistas, guardadores do sétimo dia saídos ou não da denominação IASD.
Se todos vocês procurassem conhecer mais profundamente a Doutrina da Trindade desde os primórdios de sua formulação e dentro dos contextos históricos no qual ela começou a ser criada, muito dessa discussão teológica perderia todo o sentido. Infelizmente, o que percebo quando leio, principalmente as coisas que são escritas pelos defensores da Trindade, é que falam com profundo desconhecimento de causa. Talvez um dia esses adventistas desavisados sentirão imensa vergonha de terem defendido algo que eles sequer conhecem como deveriam. A verdade sobre a Doutrina da Trindade não está nos manuais de teologia e sim nos manuais de história e nos manuais de Crítica Textual. Vou citar apenas algumas referências históricas que tratam com isenção do encontro do Cristianismo com o paganismo, encontro esse que, entre outras coisas, permitiu o início do afastamento da idéia de um Deus único genuinamente judaica para uma idéia de Deus “único” paganizada.

“Na história das civilizações, como na dos indivíduos, a infância é decisiva. Muito, senão tudo se joga então. Entre o século V e o século X nascem hábitos de pensamento e de sensibilidade, temas e obras que formam e informam as futuras estruturas das mentalidades e das sensibilidades medievais.(…) Isso é especialmente sensível na Alta Idade Média ocidental. E a mais evidente novidade cultural está nas relações que se estabelecem entre a herança pagã e o contributo cristão – supondo, bem longe da realidade, como se sabe, que tanto um como outro formaram um todo coerente. (…) Devemos dizer dois adversários? O debate – e conflito – entre a cultura pagã e o espírito cristão encheu a literatura paleo-cristã; encheu depois a literatura da Idade Média; e, em seguida, encheu muitos trabalhos modernos dedicados à história da civilização medieval. E é verdade que ali se opunham dois pensamentos e duas sensibilidades – como hoje em dia se opõem o marxismo e a ideologia burguesa. A literatura pagã, em bloco, é na Idade Média cristã um problema; mas a questão já no século V, estava de fato, resolvida. Até ao século XIV haverá extremistas de duas tendências opostas: aqueles que proscrevem a utilização, e mesmo a leitura, dos autores da Antiguidade e aqueles que largamente os usam de maneira mais ou menos inocente. (…) A atitude fundamental, porém, fora definida pelos padres da Igreja e perfeitamente formulada por Santo Agostinho, que dizia que os cristãos deviam recorrer à cultura da Antiguidade do mesmo modo que os judeus tinham recorrido aos despojos dos Egípcios. ‘ Se os filósofos (pagãos) exprimiram, por acaso, verdades úteis à nossa fé – em especial os filósofos platônicos, – não só não há que recear tais verdades como é preciso arrancá-las para nosso serviço, a esses detentores ilegítimos.’ ”  — LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1995, Vol I. p.149-150.

“Enquanto Agostinho, já prestes a fazer-se crente, forcejava por superar sua ignorância e dissipar suas dúvidas angustiantes, ocorreu um fato decisivo para seu desenvolvimento futuro: o encontro com o neoplatonismo. Embora muitas coisas lhe parecessem obscuras, a sua fé, conquanto ainda imperfeita, não deixava de fortalecer-se dia a dia. Em consequência disso, o encontro com o neoplatonismo, que lhe proporcionou uma metafísica do espírito, foi grandemente proveitoso para o jovem Agostinho.” — BOEHNER, Fhilotheus. GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Petrópolis: Editora Vozes, 2000. p. 146.

Quando leio uma defesa da Trindade feita por um adventista que imagina ter como única regra de fé a Bíblia, tenho pena dele. Com certeza ele não sabe que o Dogma Trinitariano, nas suas bases essenciais, teve grande contribuição do maior teólogo do catolicismo, Santo Agostinho, um ex pagão epicurista que nunca esqueceu sua origem.

O Cristianismo Católico Romano, o Cristianismo que saiu vitorioso na luta entre os vários Cristianismos primitivos, legou para o mundo moderno um modelo de Cristianismo impregnado de elementos pagãos. Não se esqueçam que todas as igrejas protestantes são frutos de uma divisão interna do Catolicismo. A IASD apenas é um fruto mais tardio. Nada mais natural que as igrejas protestantes tenham um ou outro traço de sua progenitora.

Com base na Crítica Textual, é puro engano imaginar que seja possível encontrar a Doutrina da Trindade na Bíblia. Para quem não sabe, todos os versos bíblicos que procuram mostrar Jesus Cristo com Deus ou sugerir algo parecido, foram todos intencionalmente modificados para dar apoio a um tipo de divindade para Jesus Cristro que vai muito além daquela divindade que o autor originalmente procurou transmitir. Por exemplo, todo o chamado prólogo do Evangelho de João (João 1:1 a 18), não foi João que escreveu. É um acréscimo posterior feio por não se sabe quem para impor sobre Cristo um tipo de divindade que não vai aparecer no restante do Evangelho de João. Para os trinitarianos em formação, não era o bastante a Bíblia apresentar Cristo como Filho de Deus, eles fizeram a Bíblia mostrá-lo com Deus.

“Os primeiros dezoito versículos de João são, as vezes, chamados de seu Prólogo. É ali que João fala do ‘Verbo de Deus’, que estava ‘no princípio com Deus’ e que ‘era Deus’. (versículos 1 – 3). Esse verbo de Deus fez com que todas as coisas existissem. E é, ainda, o modo de Deus se comunicar com o mundo; o Verbo é como Deus se manifesta a si mesmo e aos outros. E, a certa altura, ficamos sabendo que o ‘Verbo se tornou carne e passou a habitar entre nós’. Em outras palavras, o próprio Verbo de Deus se tornou um ser humano (versículo 14). Esse ser humano era ‘Jesus Cristo’ (versículo 17). Segundo esse modo de ver as coisas, Jesus Cristo, portanto, representa a ‘encarnação’ do próprio Verbo de Deus, que estava com Deus desde o princípio e que era Deus, por meio do qual Deus fez todas as coisas”. EHRMAN. Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê? São Paulo: Prestígio, 2006, pág. 171.

“Parece, porém, que alguns copistas – possivelmente radicados em Alexandria – ainda não estavam contentes com essa visão exaltada de Cristo e, por isso, a exaltaram ainda mais, transformando o texto. Desse modo, Cristo deixa de ser simplesmente o Filho único de Deus e passa a ser, ele próprio, o Deus único! Essa parece ser uma mudança antiadocionista do texto feita por copistas proto-ortodoxos de século II”. EHRMAN. Bart D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse? Quem mudou a Bíblia e por quê? São Paulo: Prestígio, 2006, pág. 172.

A dona do Dogma Trinitariano, a ICAR, ela é muito mais honesta do que as igrejas protestantes nesta questão. Ela admite que o Dogma é mais formulado pela autoridade magisterial dela e dos concílios do que com base na Bíblia. Todas as tentativas de basear a Doutrina da Trindade na Bíblia, são tentativas fracassadas.

Elpídio da Cruz Silva.

Compartilhar isso:

Sobre Max Rangel

Servo do Eterno, Casado com Arlete Vieira, Pai de 2 filhas, Analista de Sistemas, Fundador e Colunista do site www.religiaopura.com.br.

Além disso, veja também:

Por que os judeus foram expulsos de vários países?

Relacionado

O Senhor dos Milagres – Um dos melhores filmes infantis que já assisti. Através da animação, que mistura técnicas de movimento em bonecos de argila a recursos de computação gráfica.

Click na imagem para baixar Relacionado

3 comentários

  1. Registro aqui minha admiração pelo irmão Elpídio da Cruz Silva e pelo seu escrito, ao lado de tantos outros de excelente teor que ele escreve. Que o Eterno Pai e Seu divino Filho iluminem aos nossos estimados irmãos da IASD e das demais denominações que ainda não abriram seus olhos quanto à divindade (o Pai, Único Deus verdadeiro – João 17:3 – e seu divino Filho, Jesus homem glorificado – I Tim. 2:5) apresentada nas Escrituras sagradas, que está muito longe daquela que Roma estabeleceu embasada no paganismo. Maranata!

  2. creio que realmente existem algumas disparidades textuais na biblia,e acho sim que ao longo do tempo os textos originais sofreram mudanças digamos que estratégicas.afinal as ultimas versões disparadas nas américas são redigidas por um padre.porém sou antireligioso e estou convencido de que DEUS,JESUS CRISTO e o ESPIRITO SANTO são o mesmo SER agindo em momentos diferentes.sou unicista,o conceito de trindade é realmente pagão e JESUS CRISTO é o grandioso DEUS criador do universo e pai de toda criação.

  3. se a trindade uma crença pagã que foi introduzida no protestantismo fosse o unico problema ou unico costume ou cultura pagã errada seria bom demais.o problema é que todas as religiões sem distinção de nenhuma são um erro pq foram todas enrraizadas no erro.inclusive estou pensando aqui:os adventistas são judeus que ainda esperam a cristo ou cristão de fato?

Deixe uma resposta