Diretor do Centro White aponta Ellen White como “Chave Hermenêutica” da Bíblia

Numa live intitulada “Por que Ellen G. White se temos a Bíblia?”, Renato Stencel, diretor do Centro White (UNASP-2) deu a seguinte resposta a um internauta sobre o que fazer quando nossa exegese contradiz Ellen White (min 49:34):

“Se você pegar um exegeta da atualidade que olhe para a Bíblia e interpreta a Bíblia e chegue a uma conclusão diferente daquela à que Ellen White chegou, então nós temos que desconsiderar Ellen White como sendo uma profetisa verdadeira, porque aí nós temos uma questão que coloca em cheque a fonte da revelação que é Deus. E como eu falei pra vocês lá em Tiago capítulo 2, não pode sair da mesma fonte água doce e água salgada… Isso não inibe a possibilidade de erros que não comprometam a compreensão da verdade da palavra de Deus, porque mesmo os profetas bíblicos cometeram pequenos erros. O indivíduo pensou em uma coisa mas na hora de registrar ele escreveu outra coisa. … Respondendo a pergunta: se um exegeta sério que adote os princípios da hermenêutica bíblica vai estudar a palavra de Deus e ele chega a conclusões que são diferentes àquelas que Ellen White estabeleceu, então meu amigo, Deus não é a fonte da revelação dada por Deus a Ellen White. E eu queria desafiar você, se você realmente encontrou alguma coisa que difere da compreensão de Ellen White, mande para o Centro de Pesquisas, nós teremos o prazer em analisar em estudar e poder considerar esta interpretação.”

 

A contraditória posição de Stencel durante a live é baseada no seguinte silogismo:

1. A Bíblia se auto interpreta.
2. Porém, “os escritos de Ellen White nos ajudam a compreender a palavra de Deus.”
3. “A Bíblia e os escritos de Ellen White se complementam.”
4. Seus escritos são necessários para chamar a atenção das pessoas à Bíblia.
5. Assim, a Bíblia e Ellen White estão em perfeita harmonia.
6. Logo, os escritos de Ellen White interpretam de forma infalível a Bíblia.
7. Qualquer exegeta que discorde de Ellen White, está equivocado.
8. De fato, discordar dela é discordar do próprio Deus.
9. Logo, os escritos de Ellen White estão acima da Bíblia, sendo sua “chave hermenêutica” e a palavra final sobre sua interpretação.

Vejamos como a resposta de Stencel se contrapõe à resposta dada por Robert Olson, antigo diretor do White Estate (Conferência Geral) quando disse:

“Conceder a um indivíduo [Ellen White] total controle interpretativo sobre a Bíblia de fato elevaria esta pessoa acima da Bíblia… Os escritos de Ellen White são em geral homiléticos e não estritamente exegéticos.” (One Hundred and One Questions About the Sanctuary, 41.)

Diga-se de passagem que a posição de Stencel está em conflito com a compreensão de outros autores adventistas como George Knight. Aliás, ela não é sequer a posição da própria Ellen White! Vejam o que ela diz sobre seus escritos serem usados para resolver disputas sobre interpretação sobre Daniel 8: “Rogo aos irmãos H, I, J e outros líderes para que não façam referência aos meus escritos para sustentar seus pontos de vista sobre ‘o contínuo’. Não posso consentir que nenhum dos meus escritos sejam tomados para resolver a questão.” (ME vol. 1, 164). Em outro lugar ela disse: “Os testemunhos não devem tomar o lugar da Bíblia. … Nenhuma alma deveria pôr os testemunhos à frente da Bíblia.” (Evangelismo, 48).

Em seu livro Como Ler Ellen White (disponível nos ARQUIVOS do grupo), George Knight discorre sobre o assunto (capítulo 3). Ele explica porque Ellen White não pode ser vista como a intérprete infalível da Bíblia:

“É absolutamente essencial reconhecer que Ellen White rejeitou a idéia de que seus escritos representam um comentário infalível [da Bíblia]… Os que a tornam em uma comentarista infalível da Bíblia abandonam o seu próprio conselho e invertem suas palavras, tornando-a em luz maior para entender a Bíblia como a luz menor.” (Como Ler Ellen White, pp. 26, 28).

Raoul Dederen, professor do Seminário da Andrews University, explicou que Ellen White tinha função pastoral na IASD quando disse: “Como intérprete da Bíblia, a função característica de Ellen White era a de uma evangelista––não exegeta, nem teóloga, por assim dizer, mas de pregadora de evangelista.” (Ministry, Julho de 1977, 24).

Já que estamos falando de “chave hermenêutica” esta semana, vejam como a posição de Stencel é um clássico exemplo disso quando ele coloca Ellen White como a “chave hermenêutica” da Bíblia! Segundo ele, qualquer exegese que difira de Ellen White deve ser rejeitada porque ela detém a chave interpretativa das Escrituras. Stencel acaba colocando Ellen White não ao mesmo patamar da Bíblia, mas em realidade acima dela, porque torna Ellen White a chave-mestre da interpretação das Escrituras. O fato é que existem dezenas de casos em que Ellen White se equivoca levando a interpretações errôneas do texto bíblico em seu contexto, como o livro de Daniel e escatologia bíblica e outros. Vale também ressaltar que raramente tais erros levam a heresias doutrinárias por parte de Ellen White, com exceção, talvez, da sua posição perfeccionista sobre salvação.

O erro fundamental de Stencel e de todos os que defendem Ellen White como intérprete infalível da Bíblia é concluir que ela teve inspiração absoluta e irrevogável em todo e qualquer assunto. Em outras palavras, crêem que tudo o que ela escreveu foi infalivelmente inspirado (se não verbalmente). Porém, não há nenhuma evidência que a inspiração divina funcione dessa forma, nem para os escritores bíblicos, nem para Ellen White. Aliás, a discussão sobre o tema “inspiração” está longe de ter-se encerrado na teologia cristã, e é seguro dizer que ainda não entendemos completamente como esse processo se desenrolou nos escritos canônicos! O que precisamos entender é que a inspiração bíblica foi infinitamente superior a qualquer reclamo que Ellen White possa ter feito sobre inspiração. Repita comigo, os escritos de Ellen White são inferiores à Bíblia em função, conteúdo e autoridade.

Talvez a pergunta que Stencel deveria ter tentado abordar é:

Se o crente já fizer da Biblia sua única regra de fé, qual a utilidade de Ellen White para levar “de volta” à Bíblia?

Em nosso contexto só precisa ser levado de volta à Bíblia quem coloca os escritos de Ellen White à frente da Bíblia. Parece então que esses escritos de Ellen White criam um ciclo vicioso de afastamento da Bíblia que criam então a necessidade de um retorno a ela, e facilitado por quem? Ellen White. Este é um argumento circular e, em última instância, simplesmente insustentável. A única explicação para essa “redundância” é tornar Ellen White em guardiã única da interpretação bíblica, perpetuando assim sua relevância no adventismo.

Trocando em miúdos, então, embora Stencel negue em sua live (43:10) que os escritos de Ellen White constituem “chave hermenêutica” da Bíblia, a conclusão lógica da sua fala é que eles são, já que ela é a intérprete final da Bíblia e não se pode discordar dela. Inclusive outra implicação lógica do que ele defende é que discordar de Ellen White significa discordar do próprio Deus! Tal posição em nada difere da posição católica sobre a infalibilidade papal como porta-voz divino. Foi contra isso que a Reforma Protestante se levantou: o crente tem total autorização para ler e entender a Bíblia por si mesmo, sem necessitar de um mediador, seja ele o papa, ou Ellen White.

Em suma, qualquer exegeta adventista sério––como bom e fiel protestante––pode e deve estudar o texto bíblico sem ter que “pagar pau” para Ellen White com medo de discordar do próprio Deus. Fica até chato ter que falar isso, mas o fato é que ninguém se perderá por fazer da Bíblia sua única regra de fé e prática.

André Reis, Ph.D.
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O vídeo original pode ser encontrado aqui:

Fonte: https://www.facebook.com/1501592223/videos/10226374276012196/

Sobre Max Rangel

Servo do Eterno, Casado, Pai de 2 filhas, Analista de Sistemas, Fundador e Colunista do site www.religiaopura.com.br.

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